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Livro rememora o Rio de Janeiro do início do século XX

Jornal do Brasil Cultura 15/09/2015


“Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós (…). Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua”. E não é que João do Rio tinha razão? Publicado em 1908, o texto do escritor revela que já nessa época as pessoas gostavam de sair e vivenciar a cidade. Essa prática marcou a vida e a carreira de Paulo Barreto, nome de batismo do conhecido João do Rio, e chamou a atenção da jornalista e professora Aline Novaes, que lança nesta terça-feira (15) o livro “João do Rio e seus cinematographos” (Faperj/Mauad X), na Livraria Blooks, em Botafogo.

O título faz menção à coluna Cinematographo, publicada na Gazeta de Notícias de 1907 a 1910 e ao livro de mesmo nome, lançado em 1908, ambos escritos por João do Rio. No bom Aurélio, a palavra nada mais é do que o “aparelho que reproduz numa tela o movimento, mediante uma sequência de fotografias”. O termo reflete o momento histórico. O início do século XX foi uma época marcada por grandes mudanças urbanas e avanços técnico-científicos. São inúmeras novidades: o bonde elétrico, os cafés, o automóvel e, além de outras coisas, o cinema. Tudo isso no Rio de Janeiro, a antiga Capital Federal, que completa 450 anos de sua fundação.

Autora teve contato com os originais da coluna Cinematographo na Biblioteca Nacional
Autora teve contato com os originais da coluna Cinematographo na Biblioteca Nacional

Ao olhar para este período conhecido como belle époque carioca, a obra revela os costumes daquela sociedade. A caricatura na capa, desenho de Loredano, convida o leitor a conhecer textos inéditos de João do Rio, que levam até as ruas da antiga capital federal e resgatam as produções culturais, as questões políticas e sociais, além das novas formas de vivenciar a cidade, que se organizava tendo Paris, símbolo da modernidade, como modelo. Aborda, ainda, as possibilidades do gênero crônica, que assume o caráter de registro histórico, de crítica cultural e política e, por fim, se deixa contaminar pelo cinema e se apresenta como crônica cinematográfica.

Para Giovanna Dealtry, professora do Departamento de Letras da Uerj, o trabalho da autora é indispensável tanto pelo ineditismo do material pesquisado quanto pela alta qualidade das análises das crônicas.

Embora seja uma adaptação da tese de doutorado defendida em 2013, Aline optou por uma escrita que atendesse diferentes interesses e públicos.

“O livro aborda diversas questões. Quem estiver interessado na história do Rio, na obra de Paulo Barreto, no gênero crônica e na relação entre literatura e jornalismo vai gostar”, comenta.

Durante a análise das colunas, a autora observou o lado crítico de Paulo Barreto em textos que denunciavam os problemas da sociedade e dos excluídos da modernização.

“A cidade se transformou, mas não foi para todos. O que impressiona é o fato de vivermos os mesmos problemas, como alagamentos, corrupção, saúde, falta de investimento na educação, já relatados por João do Rio há de mais de 100 anos”

A autora e a pesquisa

Aline cursava Letras na UERJ e Jornalismo na PUC, quando conheceu os textos de João do Rio em uma disciplina chamada Comunicação e Literatura, lecionada pela professora Giovanna Dealtry, que assina a orelha do livro. Ao perceber a possibilidade de estudar algo que atrelasse seus interesses, começou a se interessar pelo estudo da cidade do Rio e da obra do escritor.

“Eu fiquei muito interessada nessa figura que revelava a forte relação com a cidade em seu próprio nome. E eu adora passear pelas ruas do centro do Rio, aquela região me chamava muito a atenção. Parece que eu me encontrava lendo os textos de João do Rio, os relatos que ele faz da cidade, a estratégia discursiva dele, um jornalista, escritor, cronista. Uma figura híbrida, apaixonada pelo jornalismo, pela literatura e pela cidade. E essas eram também as minhas paixões. Quer dizer, além do samba e do flamengo”, brinca.

Motivada, passou a fazer parte de um grupo de pesquisa na PUC-Rio coordenado pelo professor Renato Cordeiro Gomes, que orienta os estudos da autora até hoje. Para ele, há semelhanças entre o livro de João do Rio e o da Aline, escrito 100 anos depois.

“Os dois irmanam-se pelo amor ao Rio de Janeiro e pela materialidade do papel e da escrita humana, preto sobre o branco, e, mais, pela busca de outra duração, que salve do tempo e do esquecimento a escrita, aquela mesma que se submete à tirania dos dias.”, declara o professor, que é autor, dentre outros livros, de Todas as cidades, a cidade e João do Rio por Renato Cordeiro Gomes.

A pesquisa foi desenvolvida na Biblioteca Nacional, onde a autora teve contato com os originais da coluna Cinematographo. Para ela, trabalhar com fonte primária tem algumas complicações, como os trechos ilegíveis por conta da ação do tempo e as alergias e dores de cabeça ao manusear um documento antigo mesmo usando máscara e luvas. No entanto, reconhece que há recompensas.

“É muito cansativo. Mas vale a pena. É muito gratificante você realizar uma pesquisa em um material que estava esquecido, que não foi publicado em livro. É uma das coisas que mais me estimula como pesquisadora”.

SERVIÇO: “João do Rio e seus cinematographos (o hibridismo da crônica na narrativa da belle époque carioca)” será lançado hoje, às 19h, na Blooks Livraria, que fica na Praia de Botafogo, 316. Mais informações pelo telefone (21) 3479-7422.


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