REVISTA IHU - Uma esquerda para o século XXI

REVISTA IHU - Uma esquerda para o século XXI

Num momento em que se iniciam as discussões sobre as próximas eleições de 2022, não deixa de ser oportuna uma reflexão sobre a esquerda como essa proposta por José Maurício Domingues, que indica claramente a necessidade de se concentrar o debate em propostas e programas em vez de centrar a discussão em nomes de personalidades cujos verdadeiros interesses nem sempre vêm à luz, escreve Josué Pereira da Silva, professor aposentado da Unicamp, em artigo publicado por A Terra é Redonda, 02-01-2022.

 

Eis o artigo.

 

“O desafio da esquerda brasileira – que espelha desafios globais, que tampouco têm sido bem ou plenamente respondidos – é ser capaz de construir uma identidade em sua radicalidade, socialista, democrática, ecologista e igualitária em todas as dimensões, ao mesmo tempo que seja capaz de, nos quadros de uma estratégia de longo prazo, construir alianças que permitam abrir espaço para esse projeto mais ambicioso, sem perder-se pelo caminho e no taticismo” (José Maurício DominguesUma esquerda para o século XXI, p.103).

 

Nos últimos anos, temos observado um renascimento do debate sobre a esquerda como mostra o crescente número de publicações (livros e artigos) que tratam do tema sob diferentes ângulos. Esse debate mais recente, como o que ocorreu na década de 1990, parece estar relacionado com a crise vivenciada pelas correntes ou vertentes políticas de esquerda, especialmente depois de certo esgotamento das experiências de governos ditos de esquerda que teve lugar, sobretudo em países da América Latina, neste início do século XXI.

 

Este livro de José Maurício Domingues é sem dúvida mais uma importante contribuição ao debate, seja pelo balanço crítico que faz do tema, seja pelas proposições que ele avança no sentido de resgatar uma política de esquerda adequada ao momento atual. Esta não é, entretanto, sua primeira intervenção no debate sobre a crise da esquerda, como se pode ver em seu livro Esquerda: crise e futuro, publicado em 2017. No presente livro, porém, Domingues amplia o debate sobre o tema, incluindo, além da análise da esquerda na conjuntura atual em âmbito global, uma digressão sobre a história de algumas vertentes da esquerda e uma agenda de proposições que ele considera importantes para repensar suas políticas.

 

Uma esquerda para o século XXI é formado por uma introdução e sete capítulos, com o último sendo apresentado como conclusão. Depois de apresentar na introdução, de forma mais ou menos sucinta, os principais objetivos visados pelo autor, os capítulos do livro são dedicados a tratar sempre de um tema central.

 

capítulo 1 faz uma apreciação da conjuntura atual, no Brasil e no mundo, marcada pela emergência ao poder de partidos ou movimentos de extrema-direita, pela crise da democracia e sua oligarquização; o capítulo 2, por sua vez, volta-se para a discussão da relação da teoria crítica (em sentido latu) com a esquerda, em suas diferentes vertentes. Com isso, Domingues conecta seu diagnóstico crítico do presente – caracterizado pela crise do neoliberalismo, pela ascensão da extrema direita ao poder, pela oligarquização da política partidária e seu distanciamento dos movimentos sociais, assim como pelos efeitos negativos de tudo isso sobre a democracia – com uma análise da esquerda, tanto a esquerda teórica dos intelectuais críticos quanto a prática política da esquerda militante encontrada nos partidos que ocupam o espectro político que vai da chamada centro-esquerda até a extrema esquerda.

 

A análise do momento atual, das formulações teóricas e das práticas da esquerda leva Domingues a mergulhar de forma mais aprofundada no que ele considera as três principais vertentes da esquerda, definidas como social-democraciasocialismo/comunismo e anarquismo. Aqui, a discussão ocupa dois capítulos do livro. O capítulo 3, onde ele faz uma digressão histórica sobre cada uma das mencionadas vertentes; e o capítulo 4, dedicado a fazer um balanço das mesmas três vertentes, consideradas no momento atual.

 

Feito isso, ele volta a atenção, no capítulo 5, para a esquerda no Brasil, centrando a análise tanto nas dificuldades teóricas vivenciadas por seus representantes quanto nos equívocos políticos, sobretudo durante sua recente experiência no poder. Nesse momento, ele retorna aos temas da oligarquização dos partidos políticos de esquerda, suas alianças um tanto espúrias, seu envolvimento com esquemas de corrupção, seu afastamento das bases e também o tratamento instrumental que a esquerda tem dado à democracia. Esses problemas são, em grande medida, o substrato da crise que a esquerda vive atualmente, conforme ele explicita no capítulo 6, onde discute o consequencialismo das políticas de esquerda, assentado em uma “filosofia” na qual os meios empregados são justificados pela suposta nobreza dos fins perseguidos. E isso, claro, tem em muitos sentidos consequências desastrosas para a esquerda, como mostrou a experiência histórica recente.

 

Para Domingues, no entanto, nem tudo está perdido. Mas para que nem tudo se perca é preciso que a esquerda se modernize, tanto em sua agenda temática, quanto em sua prática política. É disso que trata o capítulo 7, conclusivo, no qual ele aponta caminhos concretos – no curto e no longo prazo – pelos quais a esquerda, em sentido amplo, poderia se reencontrar com uma política verdadeiramente emancipatória, que é a razão de sua existência.

 

Aqui, a defesa da democracia e sua radicalização no sentido de torná-la verdadeiramente democrática ocupam um lugar central em seu argumento. Democracia de alta intensidade seria, então, a chave para lidar com outros temas, como a extrema desigualdade social, a questão dos direitos (humanos, sociais, difusos), a relação com a natureza e a biodiversidade, e mesmo com a construção das alianças necessárias para barrar as regressões civilizatórias promovidas pela extrema direita e pelo neoliberalismo. Tudo isso deve, segundo Domingues, estar presente em “uma agenda contemporânea (de esquerda), radical em seus fundamentos, mas politicamente realista”.

 

A propósito, vale dizer que o texto citado na epígrafe, embora tirado de um capítulo que trata diretamente da esquerda no Brasil, traduz bem, ainda que de forma bastante sintética, as intenções do autor no livro ora resenhado. Neste livro, ele reflete criticamente sobre a crise da esquerda – não só no Brasil – em suas diferentes dimensões, sem se limitar, no entanto, à crítica de um “observador engajado” (como diria Raymond Aron). Domingues vai além: avança sua defesa de um socialismo democrático e ecológico e propõe estratégias de curto e de longo prazo que ele considera adequadas à esquerda, ou às esquerdas, na luta por seus objetivos emancipatórios históricos; ou seja, uma estratégia que possibilita pensar o futuro da esquerda num horizonte histórico de longo prazo, mas sem perder de vista as dificuldades do momento.

 

Num momento em que se iniciam as discussões sobre as próximas eleições de 2022, não deixa de ser oportuna uma reflexão sobre a esquerda como essa proposta por José Maurício Domingues, que indica claramente a necessidade de se concentrar o debate em propostas e programas em vez de centrar a discussão em nomes de personalidades cujos verdadeiros interesses nem sempre vêm à luz.

 

Enfim, pela qualidade e pela profundidade da análise nele contida, este livro de José Maurício Domingues é certamente uma importante contribuição ao debate atual sobre a esquerda, seja em termos teóricos, seja no que diz respeito a sua prática política. É, portanto, uma leitura essencial para militantes e intelectuais de esquerda, mas não só para eles. Trata-se, na verdade, de um livro que deve interessar a qualquer pessoa preocupada com os problemas do presente.

 

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