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Le Monde Diplomatique Brasil - José Maurício Domingues
11 January, 2022

Neste episódio, Bianca Pyl e Luís Brasilino conversam com o sociólogo José Maurício Domingues, autor do livro “Uma esquerda para o século XXI: horizontes, estratégias e identidades”, lançado em outubro pela editora Mauad. A obra, que inaugura a coleção “Esquerda em movimento”, faz um balanço da trajetória das principais vertentes da esquerda desde o século XVIII. 

Bianca Pyl e Luís Brasilino conversam com o sociólogo José Maurício Domingues, autor do livro “Uma esquerda para o século XXI: horizontes, estratégias e identidades”, lançado em outubro pela editora Mauad. A obra, que inaugura a coleção “Esquerda em movimento”, faz um balanço da trajetória das principais vertentes da esquerda desde o século XVIII e aponta alternativas para a sequência da luta socialista neste momento de hegemonia neoliberal e ascensão da extrema direita. Falamos sobre o caráter do governo Bolsonaro e a atuação das oposições, a redução do horizonte político da esquerda e sua a incapacidade de pautar o debate e mobilizar a população, a história da social-democracia, do comunismo revolucionário e do anarquismo, o ciclo de manifestações globais iniciado a partir da crise econômica de 2008, imediatismo e consequencialismo nas forças de esquerda, os erros e acertos do PT, a contribuição das lutas feminista, antirracista e ambiental e a importância da democracia para o socialismo. Maurício é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj) e autor de inúmeros livros, entre eles, “O Brasil entre o presente e o futuro”, “Esquerda: crise e futuro”, “Emancipação e história” e “Teoria crítica e modernidade política”. Trilha: Titãs, “Comida” (Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes e Sergio Britto); e Jorge Drexler, “Todo se transforma”.

 

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REVISTA IHU - Uma esquerda para o século XXI
11 January, 2022

Num momento em que se iniciam as discussões sobre as próximas eleições de 2022, não deixa de ser oportuna uma reflexão sobre a esquerda como essa proposta por José Maurício Domingues, que indica claramente a necessidade de se concentrar o debate em propostas e programas em vez de centrar a discussão em nomes de personalidades cujos verdadeiros interesses nem sempre vêm à luz, escreve Josué Pereira da Silva, professor aposentado da Unicamp, em artigo publicado por A Terra é Redonda, 02-01-2022.

 

Eis o artigo.

 

“O desafio da esquerda brasileira – que espelha desafios globais, que tampouco têm sido bem ou plenamente respondidos – é ser capaz de construir uma identidade em sua radicalidade, socialista, democrática, ecologista e igualitária em todas as dimensões, ao mesmo tempo que seja capaz de, nos quadros de uma estratégia de longo prazo, construir alianças que permitam abrir espaço para esse projeto mais ambicioso, sem perder-se pelo caminho e no taticismo” (José Maurício DominguesUma esquerda para o século XXI, p.103).

 

Nos últimos anos, temos observado um renascimento do debate sobre a esquerda como mostra o crescente número de publicações (livros e artigos) que tratam do tema sob diferentes ângulos. Esse debate mais recente, como o que ocorreu na década de 1990, parece estar relacionado com a crise vivenciada pelas correntes ou vertentes políticas de esquerda, especialmente depois de certo esgotamento das experiências de governos ditos de esquerda que teve lugar, sobretudo em países da América Latina, neste início do século XXI.

 

Este livro de José Maurício Domingues é sem dúvida mais uma importante contribuição ao debate, seja pelo balanço crítico que faz do tema, seja pelas proposições que ele avança no sentido de resgatar uma política de esquerda adequada ao momento atual. Esta não é, entretanto, sua primeira intervenção no debate sobre a crise da esquerda, como se pode ver em seu livro Esquerda: crise e futuro, publicado em 2017. No presente livro, porém, Domingues amplia o debate sobre o tema, incluindo, além da análise da esquerda na conjuntura atual em âmbito global, uma digressão sobre a história de algumas vertentes da esquerda e uma agenda de proposições que ele considera importantes para repensar suas políticas.

 

Uma esquerda para o século XXI é formado por uma introdução e sete capítulos, com o último sendo apresentado como conclusão. Depois de apresentar na introdução, de forma mais ou menos sucinta, os principais objetivos visados pelo autor, os capítulos do livro são dedicados a tratar sempre de um tema central.

 

capítulo 1 faz uma apreciação da conjuntura atual, no Brasil e no mundo, marcada pela emergência ao poder de partidos ou movimentos de extrema-direita, pela crise da democracia e sua oligarquização; o capítulo 2, por sua vez, volta-se para a discussão da relação da teoria crítica (em sentido latu) com a esquerda, em suas diferentes vertentes. Com isso, Domingues conecta seu diagnóstico crítico do presente – caracterizado pela crise do neoliberalismo, pela ascensão da extrema direita ao poder, pela oligarquização da política partidária e seu distanciamento dos movimentos sociais, assim como pelos efeitos negativos de tudo isso sobre a democracia – com uma análise da esquerda, tanto a esquerda teórica dos intelectuais críticos quanto a prática política da esquerda militante encontrada nos partidos que ocupam o espectro político que vai da chamada centro-esquerda até a extrema esquerda.

 

A análise do momento atual, das formulações teóricas e das práticas da esquerda leva Domingues a mergulhar de forma mais aprofundada no que ele considera as três principais vertentes da esquerda, definidas como social-democraciasocialismo/comunismo e anarquismo. Aqui, a discussão ocupa dois capítulos do livro. O capítulo 3, onde ele faz uma digressão histórica sobre cada uma das mencionadas vertentes; e o capítulo 4, dedicado a fazer um balanço das mesmas três vertentes, consideradas no momento atual.

 

Feito isso, ele volta a atenção, no capítulo 5, para a esquerda no Brasil, centrando a análise tanto nas dificuldades teóricas vivenciadas por seus representantes quanto nos equívocos políticos, sobretudo durante sua recente experiência no poder. Nesse momento, ele retorna aos temas da oligarquização dos partidos políticos de esquerda, suas alianças um tanto espúrias, seu envolvimento com esquemas de corrupção, seu afastamento das bases e também o tratamento instrumental que a esquerda tem dado à democracia. Esses problemas são, em grande medida, o substrato da crise que a esquerda vive atualmente, conforme ele explicita no capítulo 6, onde discute o consequencialismo das políticas de esquerda, assentado em uma “filosofia” na qual os meios empregados são justificados pela suposta nobreza dos fins perseguidos. E isso, claro, tem em muitos sentidos consequências desastrosas para a esquerda, como mostrou a experiência histórica recente.

 

Para Domingues, no entanto, nem tudo está perdido. Mas para que nem tudo se perca é preciso que a esquerda se modernize, tanto em sua agenda temática, quanto em sua prática política. É disso que trata o capítulo 7, conclusivo, no qual ele aponta caminhos concretos – no curto e no longo prazo – pelos quais a esquerda, em sentido amplo, poderia se reencontrar com uma política verdadeiramente emancipatória, que é a razão de sua existência.

 

Aqui, a defesa da democracia e sua radicalização no sentido de torná-la verdadeiramente democrática ocupam um lugar central em seu argumento. Democracia de alta intensidade seria, então, a chave para lidar com outros temas, como a extrema desigualdade social, a questão dos direitos (humanos, sociais, difusos), a relação com a natureza e a biodiversidade, e mesmo com a construção das alianças necessárias para barrar as regressões civilizatórias promovidas pela extrema direita e pelo neoliberalismo. Tudo isso deve, segundo Domingues, estar presente em “uma agenda contemporânea (de esquerda), radical em seus fundamentos, mas politicamente realista”.

 

A propósito, vale dizer que o texto citado na epígrafe, embora tirado de um capítulo que trata diretamente da esquerda no Brasil, traduz bem, ainda que de forma bastante sintética, as intenções do autor no livro ora resenhado. Neste livro, ele reflete criticamente sobre a crise da esquerda – não só no Brasil – em suas diferentes dimensões, sem se limitar, no entanto, à crítica de um “observador engajado” (como diria Raymond Aron). Domingues vai além: avança sua defesa de um socialismo democrático e ecológico e propõe estratégias de curto e de longo prazo que ele considera adequadas à esquerda, ou às esquerdas, na luta por seus objetivos emancipatórios históricos; ou seja, uma estratégia que possibilita pensar o futuro da esquerda num horizonte histórico de longo prazo, mas sem perder de vista as dificuldades do momento.

 

Num momento em que se iniciam as discussões sobre as próximas eleições de 2022, não deixa de ser oportuna uma reflexão sobre a esquerda como essa proposta por José Maurício Domingues, que indica claramente a necessidade de se concentrar o debate em propostas e programas em vez de centrar a discussão em nomes de personalidades cujos verdadeiros interesses nem sempre vêm à luz.

 

Enfim, pela qualidade e pela profundidade da análise nele contida, este livro de José Maurício Domingues é certamente uma importante contribuição ao debate atual sobre a esquerda, seja em termos teóricos, seja no que diz respeito a sua prática política. É, portanto, uma leitura essencial para militantes e intelectuais de esquerda, mas não só para eles. Trata-se, na verdade, de um livro que deve interessar a qualquer pessoa preocupada com os problemas do presente.

 

Leia mais

 

UNISINOS - Entrevista especial com José Maurício Domingues
11 January, 2022

“É crucial buscar o que é nosso horizonte comum de futuro”: um novo universalismo para sociedades complexas. Entrevista especial com José Maurício Domingues

"Um projeto socialista precisa ter uma resposta para a crise climática, a qual serve, ademais, para pôr em xeque o funcionamento do capitalismo", diz o sociólogo

Foto: IIPC

Por: Patricia Fachin | 11 Janeiro 2022

 

As experiências políticas dos últimos anos, frustradas por não conseguirem garantir a emancipação humana diante das injustiças causadas pela própria espécie, continuam a nos desafiar na busca de modelos políticos que despertem a nossa imaginação para algo novo.

 

Olhando para o passado recente, explica José Maurício Domingues, a "derrota do chamado 'socialismo real' e mudanças fundamentais na estrutura social complicaram muito a questão do socialismo" que, em diferentes países, se transformou em um "coletivismo autoritário". A social-democracia, por sua vez, "não passou de reformas muito limitadas", enquanto o anarquismo, argumenta, "dificilmente tem soluções para sociedades altamente complexas". E acrescenta: "A profecia – baseada na identificação de processos sociais de simplificação da estrutura de classes aparentemente em curso no século XIX – de um proletariado que fosse majoritário e se homogeneizasse, ao menos politicamente, não se cumpriu, nem se cumprirá na forma imaginada por Marx e Engels. Os processos de individuação, não necessariamente numa direção egoísta e mesquinha, avançaram muito".

 

Autor do livro "Uma esquerda para o século XXI. Horizontes, estratégias e identidades" (2021), que integra a coleção Esquerda em movimento, da editora Mauad XDomingues destaca que, apesar dos fracassos políticos, "a ideia de socialismo no sentido de comunismo como apropriação comum, e direitos, como enfatizou a social-democracia desde a República de Weimar em sua Constituição de 1919, bem como a preocupação com a monopolização do poder, desde cedo denunciada pelos anarquistas, são temas que devem estar no centro de um renovado pensamento socialista, que seja capaz de interpelar também as grandes questões de nosso tempo".

 

Um projeto para o futuro, defende na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU, "não pode ser baseado sobretudo na propriedade estatal, mas sim em vários tipos de propriedade social, pois, como aprendemos com o coletivismo autoritário, propriedade estatal não necessariamente implica apropriação social, que é o que caracteriza um projeto socialista".

 

Segundo ele, também é preciso desoligarquizar a democracia, aumentar a participação política, alterar a jornada de trabalho e buscar a concretização dos direitos para buscar um horizonte comum de futuro. "Ao lado de nossas particularidades e para além de 'lugares de fala' excludentes e que se fazem a partir das experiências de cada um, não obstante o quão importante elas sejam, é crucial buscar o que é nosso horizonte comum de futuro. Aliás, é o que se lê em cada página de Fanon! Um novo universalismo, que possibilite o que quero chamar de solidariedade complexa, em uma sociedade complexa, atravessada por dominações e desigualdade, assim como por desejos múltiplos, é fundamental, voltada para o futuro. Não há mágica que prescreva o equilíbrio entre esses aspectos de forma absoluta e permanente". E assegura: "Aí é preciso recorrer a Lenin e buscar a análise concreta da situação concreta".

 

José Maurício Domingues (Foto: Reprodução)

 

José Maurício Domingues é graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUCRJ, mestre em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ, e doutor em Sociologia pela London School of Economics and Political Science, Universidade de Londres. Atualmente é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - IESP-UERJ. É autor de Uma esquerda para o século XXI. Horizontes, estratégias e identidades (Rio de Janeiro: Mauad X, 2021) Esquerda: crise e futuro (2017) e O Brasil entre o presente e o futuro (2a. edição, 2015).

 

Confira a entrevista.

 

IHU - No livro "Uma esquerda para o século XXI. Horizontes, estratégias e identidades", o senhor caracteriza o governo Bolsonaro como uma forma de oligarquia liberal autoritária que tem como projeto tornar o país mais oligárquico, menos democrático e mais militarizado e autocrático. Pode nos dar exemplos de como isso tem sido feito na prática?

 

José Maurício Domingues - As democracias liberais são na verdade o que se pode chamar de um regime misto, que inclui elementos democráticos – livre expressão, participação eleitoral, organização autônoma da sociedade – e oligárquicos – com a política em larga medida controlada pelos políticos profissionais e os aparelhos burocrático-partidários. Em princípio, o império da lei é vigente nesses regimes liberais, mas o Estado e mesmo aparelhos paraestatais têm muitos recursos coercitivos e repressivos a sua disposição. Houve, durante o século XX, no segundo pós-guerra, uma democratização da democracia liberal, com a participação das massas, ampliação do direito de voto (feminino também), direitos sociais amplos na Europa e uns poucos outros lugares. Desde fins dos anos 1970, tem havido, porém, uma desdemocratização da democracia liberal, que se fez mais oligárquica e autoritária. Exprimir opinião e votar acaba, em particular, tendo pouco efeito sobre o sistema político, uma vez que os políticos e o próprio Estado se vinculam menos à população em geral, mais preocupados que estão consigo mesmos e seu poder, com os ricos e com as forças do capitalismo global. Cada país tem nisso sua trajetória.

No centro do sistema global, aparece uma tendência à constituição do que chamo de oligarquia liberal avançada mais típica. Em outros lugares, como a Turquia e até há pouco inclusive a Rússia, elementos básicos da democracia liberal se mantêm, mas são muito restringidos, com o sistema político se tornando claramente mais autoritário. Se na Turquia isso parece estar em crise, a Rússia evoluiu mais explicitamente hoje para um sistema autocrático. Trump queria fazer algo parecido nos Estados Unidos e os republicanos lá seguem nessa direção. No Brasil, cujo sistema político se democratizou sem deixar de ser altamente oligárquico, mantendo um núcleo tradicional, que inclui mas não se restringe ao “centrão”, temos, por outro lado, um sistema político e um aparato de Estado com fortíssimos elementos autoritários, que o atual governo vem tentando explorar em seu favor, bloqueado até agora em boa medida pelas forças democráticas, pela esquerda e por elementos importantes da oligarquia política e seus vetores no judiciário comprometidos com a democracia liberal.

 

 

Oligarquia

 

Quero enfatizar que, quando falo de oligarquia, não me refiro à influência do poder econômico e das classes burguesas no sistema político. Obviamente ela existe e é forte, mas não devemos esquecer que a dimensão política tem ampla autonomia no mundo moderno. Por isso mesmo, vemos rapidamente os partidos políticos de esquerda se oligarquizarem e se transformarem em elemento, com frequência subordinado, das oligarquias das democracias liberais, sem que isso queira dizer que não representem em parte (junto com seu próprio interesse no poder) classes e grupos sociais distintos daqueles representados, em parte, por partidos de outras fatias do espectro político. De todo modo, o governo de Bolsonaro gostaria de monopolizar ou ao menos se tornar dominante no sistema político, juntando os setores oligárquicos mais fisiológicos com seu núcleo de direita ou mesmo extrema-direita. Começou com um projeto mais puro, mas logo descobriu que a vida ficava muito difícil sem esses elementos oligárquicos, que são uma verdadeira praga do sistema político brasileiro. Mas pode voltar, ao menos em parte, a seu projeto original caso Bolsonaro ganhe a eleição de 2022, o que de modo algum está descartado.

 

 


Capa do livro Uma esquerda para o século XXI. Horizontes, estratégias e identidades, de José Maurício Domingues (Foto: Reprodução)

 

 

IHU - A que atribui não só o retorno de grupos políticos autoritários à política nacional, mas também a adesão de parte da população a esse segmento?

 

José Maurício Domingues - O Brasil viveu um processo de democratização acentuado entre fins da década de 1970 e meados dos anos 2000. Mas os problemas do sistema político e o comportamento das forças políticas – que atuaram como facções em guerra sobretudo durante o governo de Dilma Rousseff – levaram a uma crise política muito profunda. A esquerda, sobretudo o PT, se desmoralizou com os escândalos de corrupção e o estelionato eleitoral de Rousseff após sua reeleição; o PSDB se tornou um partido cada vez mais neoliberal e sedento de voltar ao poder, juntamente com o DEM, enquanto que os políticos e partidos mais fisiológicos queriam se proteger dos avanços da Lava Jato e de seu bonapartismo judiciário, que se aproveitava da crise e das divisões no sistema político e ao mesmo tempo aprofundava a desestruturação desse sistema, sem ser de modo algum o principal agente desestruturador.

 

2013 - Insatisfação de massa

 

Na verdade, a crise começa em 2013 com a insatisfação de massa, sobretudo dos jovens, contra o sistema político e sua oligarquização, o que não quer dizer que esse conceito estivesse presente enquanto tal. Fato é que os plebeus, definidos em termos políticos, da sociedade brasileira demonstraram sua insatisfação com a falta de representação, a corrupção, o autocentramento dos políticos, majoritariamente com a falta de direitos, a exemplo do que ocorreu no Chile a partir de 2019, mas de maneira mais caótica, frente à irritação dos aparelhos de esquerda - se bem que houve presença da direita também nos protestos. Rousseff acabou por não conseguir manejar a situação, que se complicou com a crise econômica, o mal-estar das classes médias e, enfim, a decepção dos empresários, que então optaram por aproveitar a crise e apostar num neoliberalismo radicalizado e uma subalternização ainda maior em termos globais. A crise foi fundamentalmente política, somente no fim do processo o empresariado decidiu realmente apoiar o impeachment.

 

Equívocos políticos

 

Não há como encontrar na economia, de forma direta, os determinantes da crise política neste caso, muito menos sugerir interesses imperialistas, guerra híbrida e coisas desse tipo, que servem mais como tentativa das lideranças de esquerda de se esconder dos erros que cometeram. Nem adianta evocar escravidão e latifúndio para cobrir os equívocos políticos recentes cometidos.

 

 

Visões pessoais de mundo

 

Bolsonaro, sim, se aproveitou da crise do sistema político e, correndo por fora, embora dele fizesse parte há tempos, recolheu vitoriosamente a insatisfação e a raiva da população com os políticos. Sua visão pessoal de mundo se vincula ao fascismo da ditadura militar, mas o projeto dos generais que o apoiaram tinha mais a ver com a perspectiva de autorreforma da ditadura nos anos 1980, frustrado com a derrota no Colégio Eleitoral em 1985. De resto, a direita sempre esteve por aí, mas a crise do sistema político - e da esquerda, especialmente - abriu espaço para que pudessem retomar seus projetos, que, aliás, vinham sendo preparados também por uma bem articulada campanha de pseudointelectuais pseudoliberais. Acabaram todos abraçados à oligarquia fisiológica. Todavia, a crise política não acabou. Pandemiacrise econômica e extrema-direita concentram as preocupações da população, mas os problemas colocados em 2013 não desapareceram.

 

 

IHU - Uma das questões centrais do seu livro é sobre o que é preciso para recolocar o socialismo na ordem do dia. Como tem respondido a essa questão?

 

José Maurício Domingues - A derrota do chamado “socialismo real” e mudanças fundamentais na estrutura social complicaram muito a questão do socialismo. O coletivismo autoritário, que é como, creio, deve-se de fato chamar esse “socialismo”, da União Soviética à China e Cuba – com agora somente seu sistema político altamente autoritário vinculado a um tipo particular de capitalismo –, deixou um gosto amargo, como se se tratasse de tarefa impossível construir um socialismo que amplie a liberdade.

social-democracia não passou de reformas muito limitadas. O anarquismo dificilmente tem soluções para sociedades altamente complexas. Por outro lado, a profecia – baseada na identificação de processos sociais de simplificação da estrutura de classes aparentemente em curso no século XIX – de um proletariado que fosse majoritário e se homogeneizasse, ao menos politicamente, não se cumpriu, nem se cumprirá na forma imaginada por Marx e Engels. Os processos de individuação, não necessariamente numa direção egoísta e mesquinha, avançaram muito. Como construir uma maioria social a favor do socialismo, calcada em trabalhadores assalariados e aqueles que nem conseguem mais trabalho (ao menos, adequado e fixo), incorporando também setores médios e até mesmo pequenos empresários, é um projeto cuja via de concretização não está clara, sem que um tal projeto deixe de ser necessário de todo modo do ponto de vista político e da imaginação de um novo tipo de sociedade, que abra o horizonte histórico e subtraia da direita a possibilidade de aparecer como quem contesta, falsamente, é claro, a ordem vigente. Esse projeto não pode ser baseado sobretudo na propriedade estatal, mas sim em vários tipos de propriedade social, pois, como aprendemos com o coletivismo autoritário, propriedade estatal não necessariamente implica apropriação social, que é o que caracteriza um projeto socialista. Isso tem que se conjugar com a desoligarquização da democracia, com um aumento da participação e mudanças na jornada de trabalho de modo a liberar os cidadãos e cidadãs para tarefas cívicas, em todas as esferas, inclusive a econômica, além de buscar concretizar direitos em todas elas, o que é uma demanda, em larga medida, da população. Esses direitos podem vir a incluir direitos “econômicos” e de apropriação coletiva.

 

 

IHU - O que significa reivindicar o socialismo nos dias de hoje?

 

José Maurício Domingues - O alfaiate de Ulm, que estrela a poesia de Brecht, poderia servir de epígrafe à minha resposta se não tivesse sido utilizado já com bastante frequência. Neste momento, seria falso dizer que há forças que de fato impulsionam um projeto socialista radical, no sentido de ir à raiz da iniquidade e vazio do presente e superá-los. Mas discutir o socialismo, vinculá-lo às lutas concretas da população e a soluções intermediárias e a reformas a partir da auto-organização das pessoas e de políticas públicas que aumentem o escopo do público, da cooperação e da apropriação social, a começar pela desmercantilização e desfinanceirização – forma extrema de mercantilização – das relações sociais é um caminho imediato, o que não exclui que certas empresas e empreendimentos não devam ser propriedade estatal, controlada de forma social – ao contrário do que acontecia ontem e acontece com a Petrobras hoje, por exemplo. E, sempre, aprofundar a democracia e a participação, sem a qual nenhum socialismo é possível.

É preciso descartar muita coisa, mas a ideia de socialismo no sentido de comunismo como apropriação comum, e direitos, como enfatizou a social-democracia desde a República de Weimar em sua Constituição de 1919, bem como a preocupação com a monopolização do poder, desde cedo denunciada pelos anarquistas, são temas que devem estar no centro de um renovado pensamento socialista, que seja capaz de interpelar também as grandes questões de nosso tempo.

 

 

IHU - Percebe diferenças entre a defesa do socialismo e da justiça social?

 

José Maurício Domingues - Justiça social incluiu um amplo leque de possibilidades e se vincula a várias visões de mundo, seja o cristianismo, o liberalismo, o socialismo. Pode implicar igualdade ou equidade, que pode manter fortes desigualdades, dando um pouco mais aos que pouco têm. Justiça social comumente quer dizer arranjos distributivos em que os mais pobres adquirem direitos ou recursos materiais. Socialismo é ao mesmo tempo mais amplo e mais específico que justiça social. É certamente uma forma de concretizar a justiça social, com igualdade e liberdade em todos os planos, radicalizando o que o próprio liberalismo em algum momento definiu para si como liberdade igualitária, o que ele próprio não pode de fato concretizar, seja por conta da economia capitalista ou em função do caráter hierarquizado de seus sistemas políticos, além de outras subordinações e opressões.

 

Selo Mais Histórias
23 November, 2021

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